Música urbana 2017-09-15T00:47:52+00:00

Música urbana

Jan/2003

Publicada originalmente na Revista dos Bancários

Críticas, irônicas, apaixonadas…. Existem alguns milhares de canções sobre a cidade de São Paulo. Elas passam pelos mais diversos gêneros e contam um pouco da história paulistana

Vander Fornazieri/Revista dos Bancários

Ok, ok, poucos diriam que esta galáxia de arranha-céus que completa 449 anos “continua linda”. Mas, ainda que não desperte com freqüência louvações rasgadas como aquele abraço de Gilberto Gil, São Paulo – e seus bairros e suas ruas – figura em uma enorme quantidade de canções. Elas registram a convivência dos povos, o crescimento da capital, a loucura metropolitana e, mais recentemente, o cotidiano dos bairros periféricos. Vão da nostalgia de Lampião de Gás, de Zica Bergami, que fala de um gostoso quintal e de uma vovó preparando quitutes, à fúria de Vietnã do Brasil, em que o Pavilhão 9 equipara a violência diária de São Paulo (e do Rio) à da guerra que devastou aquele país. Passam pelo humor escrachado de São Paulo, São Paulo, do Premê – uma adaptação de New York, New York com menção a ratos e baratas e sugestão de um banho no Tietê -, e até pela ficção espacial de Sampa Midnight, de Itamar Assumpção, que relata a chegada de ETs na Avenida Paulista durante um blecaute. Tratamos aqui, portanto, de “homenagens” em sentido amplo.

Pode-se perceber um fio condutor nessa miscelânea? Para Luiz Tatit, professor do Departamento de Lingüística da USP, uma característica ao menos predominante é a ênfase mais no universo humano que no espaço físico. “Em geral são músicas mais envolvidas com o tipo de população, de regiões, com o modo de ser das pessoas do que com as belezas naturais”, opina. “Até porque [do contrário] não teria muito a falar.” Fica mesmo meio difícil imaginar a menina que vem e que passa num doce balanço a caminho… da Billings. “Os bairros aparecem como produto de visões de mundo específicas, e o encontro de etnias contribui para o humor, já que se enxerga o diferente como engraçado”, destaca. “Também aparece muito o habitante querendo ser sujeito em vez de objeto. Fica-se muito à mercê das coincidências, você não sabe se volta vivo [para casa], se não volta casado com alguém (risos)…”. Tatit ilustra a aula com composições de sua lavra no Grupo Rumo e em trabalho solo. Pro Bem da Cidade traz um anônimo comentando a inclemência da cidade-que-não-pode-parar contra “quem tem uma certa tendência a se espreguiçar em hora errada” e resolvendo: “Acho que vou ter que dar um jeito nessa cidade”.

Trem das Onze foi escolhida como “a cara” de São Paulo numa eleição promovida pelo SPTV há dois anos. A filha mais ilustre de Adoniran Barbosa – provavelmente com um empurrãozinho do personagem Adoniran, ele mesmo um símbolo da paulistanidade – bateu Sampa, tida como favorita, que ficou em segundo. Ah, em tempo: o músico, ao que se sabe, nunca sequer pisou no Jaçanã e definitivamente não viveu no Bixiga, embora o freqüentasse. Morou nos arredores da Rua 25 de Março e, com o dinheiro de “Não posso ficar/Nem mais um minuto com você…”, comprou um sítio em Cidade Ademar, esclarece Flávio Moura, um dos autores da recém-lançada biografia Adoniran Barbosa – se o senhor não tá lembrado (acaba de sair do forno pelo menos mais um livro sobre o compositor, cuja morte completou 20 anos em novembro: Adoniran: Dá Licença de Contar, escrito por Ayrton Magnaini Jr.). “Adoniran passou o resto da vida naquele bairro, que leva o nome do prefeito Ademar de Barros, um dos responsáveis pela descaracterização da cidade que ele cantou”, observa Moura, que vê um quê de sacada marqueteira no mapeamento do município feito pelo carismático filho de italianos. Também lhe chamam atenção os títulos com nomes próprios – Samba do Arnesto, Iracema… – “Trazem uma São Paulo em que as pessoas identificam o dono da venda”, continua. “Interessante, numa cidade onde o anonimato é a nota dominante.”

Quantas serão as canções de temática paulistana? Assis Angelo, produtor e apresentador do programa São Paulo Capital Nordeste (Capital AM, 1040 mHz), já contabilizou mais de 2,5 mil faixas. Calcule-se uma média de quatro minutos para cada uma. Ele levaria dez dias para ouvir todas, dormindo oito horas por noite e se dedicando integralmente no resto do tempo. Eleger a predileta, sem chance – “Uma, uma não dá.” Angelo pretende sistematizar numa enciclopédia esses doze anos de garimpo, assim que conseguir quem banque a edição, de estimadas 700 páginas. O paraibano de João Pessoa é só elogios à cidade, para onde se mudou em 1965. “São Paulo é uma quatrocentona maravilhosa”, diz. “Quando a pessoa quer progredir, ela ajuda; quando quer vagabundagem, bate.” O poeta cearense Patativa do Assaré descreve algo bem diferente em Triste Partida, do repertório de Gonzagão. Ela acompanha uma família de retirantes que vende tudo para tentar a sorte no então dito Sulmaravilha e “Só vive devendo/E assim vai sofrendo/É sofrer sem parar/Ai, ai, ai, ai…”

Nas contas de Assis Angelo, Adoniran perdeu para Tom Zé o título de compositor que mais remeteu à cidade – o baiano de Irará teria tratado dela ou de seus meandros em nada menos que 23 faixas. Numa das mais originais, narra uma suposta rixa entre o Edifício Itália e o Hilton Hotel. O primeiro, com seus 165 metros de altura, reinava inabalável na Avenida Ipiranga até ser construído o rival. Noutra criação impagável, o compositor brinca com a localização e o nome de duas avenidas e uma igualmente famosa rua, todas paralelas. A vaidosa Augusta e a Angélica furona atormentam um pobre coitado, que felizmente encontra a Consolação, “que veio olhar por mim e me deu a mão”. Tom Zé venceu o IV Festival da Record com a genial São São Paulo, Meu Amor, sobre a qual comentou à revista Caros Amigos: “Foi tomado como hino de amor, mas se tratava de uma pilhéria”. Afinal, cada um ouve como quer o par de versos conclusivo: “Porém, com todo defeito/Carrego-te dentro do peito”.

Certos locais, costumes ou elementos paisagísticos que desapareceram atravessam os tempos a bordo de acordes e estrofes. Assim se dá em Moda do Bonde Camarão, gravada por Inezita Barroso em 1960. Aqueles sucessivos passageiros se desequilibrando dentro do coletivo, expostos a situações embaraçosas, compõem um retrato musical de um meio de transporte que já foi característico. “Os bondes não tinham nada da precários”, diz Nestor Goulart Reis, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. “Pessoas de renda alta e até crianças desacompanhadas os utilizavam, estudantes flertavam durante o trajeto.” Acontece que em ladeiras como a Pamplona e a Augusta o motorneiro por vezes surpreendia todos com uma freada brusca, para se divertir. Os bondes foram todos desativados ao longo da década de 60, numa das manobras de urbanismo lamentadas pelo professor (a última linha deixou de operar em 1967). O modelo camarão era fechado e pintado na cor do crustáceo.

A voz grave de Inezita seria a primeira a registrar Ronda, uma estação obrigatória da paulicéia musical. Um clássico, aliás, devidamente renegado por seu criador, o paulistaníssimo Paulo Vanzolini. Ele já disse que a música é brega e que se trata de “uma dessas coisas que a gente comete aos 21 anos” (está com 78). Traçou, no entanto, um precioso mapa da mina numa parede do extinto bar Vou Vivendo: “No tempo em que eu era rapaz, a boemia se centrava na Avenida São João, do Largo Paissandu um pouco para cima. Era uma boemia de bares de orvalho, de dancings [lugares onde se pagava para dançar com moças] que furavam cartão, de restaurantes de sopa barata de madrugada. Era uma boemia de conversas de pouca coisa e devagar por noite afora. Às vezes entrava no bar uma mulher de jeito preocupado, olhava bem na cara de todos e saía como tinha entrado; ia provavelmente para outro bar. Um dia, pensei em fazer um samba que começasse: ‘De noite eu rondo a cidade…’”.

O Centro de tempos idos fisgou e moldou outra figura emblemática da capital, Germano Mathias. Nos anos 50 ele se juntou aos engraxates da Praça da Sé, e a latinha de graxa (a tampinha, na verdade), castigada com maestria, acabou se tornando sua marca registrada. “Eu passava no local a caminho da escola, e sempre estavam lá uns doze ou quinze batucando”, recorda. Na praça, Germano via o recreio dos integrantes da nata da malandragem, que ali papeavam e jogavam capoeira. “Na hora de bater carteira, entravam nos bondes”, recorda. Foi no Paulistano, clássica gafieira onde o sambista cantava, que ele conheceu Yvone, com quem está há 28 anos. O casal mora há sete anos em Parada de Taipas, limite norte do município, e Germano conta que não circula pelos arredores do Marco Zero, a não ser a caminho de shows. “No meu tempo existia o malandro, hoje tem o bandido”, justifica. Aos 68 anos, garante que passa os dias jogando palavras cruzadas e exibe uma dúzia de dicionários, que vão do Houaiss ao Vocabulário Poliglótico Recreativo. Apesar de não desfrutar a cidade com a mesma intensidade, o intérprete rasga seda para ela: “É o coração do Brasil e onde o samba encontra melhor acolhida.” Seu novo disco, por sinal, contém uma música chamada São Paulo, Mãe-Madrinha, do parceiro Elzo Augusto.

Quando aquela idéia de “locomotiva” cede lugar à de “caos”, como sinônimo da metrópole, no imaginário das pessoas? Para Nestor Reis, na década de 60. Uma série de processos explicaria a virada. “O Centro foi se esvaziando economicamente e sendo transformado num grande terminal de ônibus; a verticalização se acentuou; a cidade já não funcionava direito, por falta de transporte adequado; com o custo de vida proibitivo, mais pessoas foram morar nas favelas “, lista o professor. “Até o clima ficou mais quente e mais seco. São Paulo deixou de ser a terra da garoa.”

Possível novo quilombo de Zumbi… Há quem diga que Caetano Veloso “previu” nessas palavras de Sampa (1978) a expressão que o movimento hip-hop, especialmente sua porção musical, viria a ter em São Paulo. A popularização do rap, quando este passa a obter espaço na mídia e a ser consumido pela classe média, “bota no mapa” uma realidade antes oculta nas margens – chacinas rotineiras, truculência policial e falta de perspectivas num cenário dominado pelas vielas tortuosas, pelos botecos e pelos córregos cinzentos. No começo o foco não era esse, explica o jornalista Spensy Pimentel, autor de O Livro Vermelho do Hip Hop, publicado na internet. O Centro era o referencial para os pioneiros do break e do canto falado improvisado, ainda sem carga política. Seus principais pontos de encontro eram o metrô São Bento, a Praça Roosevelt e a da República. “Só a partir do final dos anos 80 o gênero é ‘adotado’ pelos bailes nos bairros”, diz Pimentel. A Zona Sul, ele situa, é o primeiro marco geográfico dessa nova fase. Desponta nas rimas de Mano Brown e outros cronistas, que, mais adiante, de certa forma consagrariam bairros como Capão Redondo e Jardim Angela. Pimentel nota nas letras posteriores uma recorrência de estruturas que marcam a paisagem e o dia-a-dia em cada região: “Na Zona Sul, é muito forte a presença do Cemitério São Luiz. A Leste é permeada pelas Cohabs e a Oeste, pelo trem.” Outros caminhos trilhados pelo cancioneiro dos manos são a incorporação dos presídios e a consolidação da palavra (e identidade) periferia.

Dois dados, aliás, mostram bem a postura de vínculo permanente com a periferia: os “Salve” (saudação) dirigidos a dezenas de bairros e o orgulho de pertencer a determinada quebrada, que transparece na própria biografia dos artistas. “Quero que o lugar onde eu estou mude, e não eu me mudar dele”, confirma Rappin’ Hood, autor de Suburbano (“Todo dia às cinco da manhã/Começa tudo de novo/Todo dia às cinco da manhã/Desperta meu povo…”) e morador da Vila Arapuá, vizinha à favela de Heliópolis. “Meu filho vai crescer aqui, do mesmo jeito que eu cresci, vendo as mesmas coisas que eu vi.”

Este complexo urbano já foi cantado até em línguas estrangeiras. Um exemplo é Sao Paulo (sem til, claro), da banda cult Morcheeba. O trio descreveu sua estada aqui como “um pesadelo”. Depois da péssima repercussão das declarações, os ingleses garantiram no estúdio sua retratação diplomática, Sao Paulo (sem til, claro). E emendaram que, bem, “a cidade tem seu lado bom, representado nas pessoas”, em entrevista ao Estadao. Também na linha fazer média, o cantor e guitarrista Jair Oliveira vem com “elegância discreta de suas meninas” (para rebater o termo deselegância carimbado por Caetano) em Outra Beleza. Relevando-se a discreta forçação de barra, a letra é bonita.

Como se vê, opção musical não falta para quem quiser cantar um Parabéns pra Você diferente no dia 25. Escolha – ou componha – a sua!